A Paula é uma das minhas amigas mais antigas, de infância, e aquela que mencionei no meu relato, que foi a primeira pessoa com quem fui conversar após optar pelo parto normal. A Paula, inclusive, foi a primeira pessoa (depois do meu namorado) a saber sobre minha gravidez, porque fiz o exame de farmácia, me desesperei quando deu positivo e fui pedir ajuda a ela sobre o que fazer a partir dali.

Hoje, trago o relato do parto normal da Paula, a primeira pessoa mais próxima de mim a realizar esse tipo de parto e a me inspirar a fazer o mesmo. E ela ainda teve a Julie depois, de forma praticamente igual.

“Moro nos Estados Unidos, por isso, sempre soube que aqui o normal seria ter o parto normal. Na verdade, eu e minha médica nunca nem falamos qual seria a forma de parto – já é automaticamente subentendido que, contando com a saúde do feto e bom desenvolvimento da gravidez, o parto será o mais natural possível.

Cheguei às 41 semanas de gestação sem nenhum sinal de dilatação ou contração. Tentei todas as formas naturais de induzir o parto e nenhuma funcionou. A obstetra disse que iríamos ter que fazer a indução, pois quando se passa de 41 semanas pode haver alguns riscos. Isso me assustou um pouco, porque eu já havia lido que as contrações de um parto induzido eram mais fortes quando comparadas às de um parto que se inicia naturalmente, e que por consequência eu poderia querer a anestesia.

Cheguei às 19h na maternidade, dei entrada tranquilamente como se fosse um hotel, com meu marido e minhas malas preparadas. Logo que deitei, a médica inseriu no meu canal vaginal um medicamento chamado Cervadil, que serve para começar a afinar o colo do útero e dilatar, e a partir daí dar início às contrações. O motivo principal de pedirem para eu chegar às 19h no hospital era para que o medicamento ficasse inserido por 12h para que eu pudesse dormir tranquila e acordar com o parto começando. Ahhh, comigo foi bem diferente do esperado e o efeito surgiu como uma bomba…

Em apenas 2 horas eu já estava sentindo contrações e em 4 horas elas já estavam ficando bem fortes. Então, eu obviamente não consegui dormir nem um minuto sequer. Em 6h o medicamento foi retirado, quando, originalmente, só seria retirado depois das 12h que mencionei. Deu meia noite, as horas passavam e as dores só aumentavam, e eu bem lentamente dilatava. Eu sentia a emoção de saber que estava começando um trabalho de parto mas ao mesmo tempo eu estava frustrada pois todos esperavam que eu dormisse enquanto o remédio da indução fazia efeito, e eu sabia que passar uma noite em claro me deixaria bem cansada para receber meu filho.

Deu 4 horas da manhã e eu já não estava mais aguentando as fortes dores e frequentes contrações. Mandei mensagem para a minha obstetra, que estava em casa e planejava chegar só às 5h. Falei que, provavelmente, iria querer a anestesia. Ela disse que tudo bem, mas que o ideal seria aguardar dilatar mais um pouco. Aguardei mais longuíssimas horas de muitos gritos de dor e tentativas frustradas de aliviar a dor naturalmente, que aprendi numa aula sobre parto. Minha mãe chegou e, ao me ver naquela situação, ficou nervosa e tentando me acalmar. Tentei ficar de molho na banheira, andar, sentar numa bola, nada me aliviava e só me fazia contorcer de dor.

Minha bolsa estourou. As contrações estavam tão fortes que eu nem precisei tomar a ocitocina sintética que estava nos planos. Depois de implorar pela anestesia mais vezes, algumas horas depois chegou o anestesista. Eu já estava numa situação bem complicada emocionalmente e não fui nem um pouco legal com ele, e meu marido chamou minha atenção na hora por isso.

Tomei a anestesia. Meu corpo rapidamente parou de sentir dor. Eu apaguei! Estava exausta depois de uma noite em claro e, então, dormi por umas 2 horas durante meu trabalho de parto. Já era umas 14h do dia seguinte da entrada no hospital. Os monitores mostravam as contrações vindo, eu já estava, enfim, com mais dilatação e próximo de começar a fazer força para expulsar o bebê. Me acordaram e falaram “vamos lá começar a expulsar o bebê!”. Como eu não sentia mais as contrações, tínhamos que olhar para o monitor e ver quando estava vindo uma, pois essa seria a hora de fazer força.

Às 17h entrei nessa fase que normalmente dura 1 ou 2 horas, mas comigo foi bem longa. Depois de muitas tentativas conseguimos ver o topo da cabecinha do Anthony. Continuei fazendo força nas contrações, mas ele não saía. Quase três horas depois de tanto trabalho ativo, meu corpo já estava ficando sem energia e, mesmo com muita motivação das enfermeiras, marido e minha mãe, eu não conseguia mais. Tentei o máximo que pude e ainda senti o nervoso de ver pelo espelho a cabecinha do meu bebê e, quando eu parava de forçar, parecia que voltava para dentro do meu corpo. Eu ficava preocupada pensando “será que ele está bem?”.

Foi aí que, ao observar os batimentos cardíacos dele pelo monitor e considerando o tempo que passei na fase do expulsivo, minha médica decidiu fazer uma episiotomia, que é um pequeno corte no períneo. Foi tiro e queda. Na próxima contração eu fiz força e o Anthony saiu lá de dentro como se fosse uma bala e meu corpo o revólver. Lembro do pulo de susto que minha mãe deu com a velocidade em que ele saiu lá de dentro.

Que beleza! Às 19:43, quase 24 horas depois que meu parto foi induzido, segurei meu bebê nos braços. Ele veio praticamente do meu útero direto pro meus seios chorando. Sem banho nem nada. Comecei a amamentá-lo e conversar com ele para que ele se acalmasse. Eu senti que ele ouvia minha voz e ficava quietinho. E assim ficamos grudadinhos por 1 hora. Depois, ele foi fazer os procedimentos de recém-nascido e eu fui tomar meu banho.

Eram 21h da noite e lá estava eu, praticamente virada desde o dia anterior, com meu bebê recém-nascido e sem esperanças de quando eu dormiria de novo. Mas uma certeza eu tinha: estava exausta, porém feliz e realizada com meu bebê saudável nos braços! Só tenho que agradecer a Deus por esse dia, que apesar de difícil, foi bem recompensador. O alívio de já ter dado à luz me fez sentir uma superação enorme. Aquele longo e complicado trabalho de parto chegou ao fim e com sucesso e nós dois passamos bem.”