Somos feitos de repertórios dos quais não conseguimos nos despir quando estamos diante de outro ser humano. Vale lembrar que ele também traz consigo seus próprios arquivos mentais. E é aí que falhamos quando projetamos, em cima do outro, nossas expectativas. Ou pior: cobranças.

Dia desses vi a foto de uma moça que acompanho nas redes sociais e percebi que ela havia rompido seu relacionamento amoroso. Me peguei pensando, em tom triste, no quanto achava que eles se divertiam e combinavam. E isso tendo como base somente aquelas publicações virtuais, porque sequer os acompanho na vida real. Agora eu pergunto: como posso, eu, julgar o tamanho da diversão e do amor que lhes cabia somente observando fotos e vídeos que, logicamente, sempre mostrarão o lado bom do amar?

Um relacionamento vai ser construído em cima de batalhas que ora serão vencidas, ora serão perdidas. Mas, principalmente, em cima das batalhas que foram meticulosamente escolhidas. Porque não dá pra enfrentar todas elas. Todos nós somos constituídos de pedaços que foram se encaixando e desencaixando ao longo da vida e que ainda passarão por metamorfoses. Nossas prioridades vão mudar, as manias também. E tentar preencher no outro a parte que lhe falta nem sempre vai ser possível.

Pode ser que vocês combinem pra cacete, em tudo quanto é sentido, e que de forma geral se entendam melhor que a maioria. Mas, mesmo assim, ele ainda prefere guaraná do que coca-cola. E você, bem… prefere tomar o guaraná só para deixa-lo mais feliz. Ou você prefere ar condicionado e ele ventilador, mas está ok, por ele, ter de dormir coberto com o edredom. Veja bem, você pode estar pensando que estou falando de exemplos ridículos, que são totalmente fáceis de ceder. E eu prefiro adiantar para você que, de fato, são exemplos muito simples. Mas que a rotina e o dia a dia podem dar proporções maiores a tudo que compõe o viver.

Amar é bom, mas exige respeito, sabedoria, paciência e, claro, o próprio amor. Exige lembrar o porquê de tudo ter começado e o motivo que nos faz querer voltar. Se as razões pelas quais você deseja se afastar forem maiores e recorrentes na cabeça, é melhor repensar se todos aqueles preceitos citados ali no início ainda têm qualquer resquício de sobrevivência ou se esses recursos, infelizmente, chegaram ao fim. Mas antes que você opte por desistir, eu prefiro assumir que sou uma entusiasta do amor e que acho que sempre vale levantar a bandeira da tentativa.

Acontece que, hoje em dia, as pessoas desistem muito fácil, descartam muito rápido. A qualquer sintoma de desencaixe ou evidência de conflito, mesmo que isoladas, as tentativas de fazer dar certo são jogadas no lixo e a palavra do desamor é verbalizada freneticamente na conversa com os amigos ou nas publicações virtuais amargas – é importante dizer que falo dos conflitos comuns, e não de relacionamentos abusivos ou agressivos.

Mas, gente, estar junto é tentativa. É aplicar estratégias diferentes o tempo todo e descobrir novos caminhos. E, acima de tudo, é um consenso entre as partes que decidem se relacionar. O que pode ser errado para mim, pode não fazer diferença nenhuma para você. O que eu considero falta grave, pode ser considerado penalidade leve para o outro. Diálogo é a arma mais eficaz para o desarme do problema.

E enquanto houver amor saudável, que tu te demores.

E que sejam leves as vidas a dois.