Eu gostaria de estar escrevendo para te contar como é um parto normal – o meu, no caso, já que cada um é muito particular. Mas o motivo desse texto é para te contar algumas coisas sobre a cesárea que nem sempre te contam. Então se você tem planos de engravidar e tem dúvidas, fobia de qualquer via de parto, não quer se assustar/impressionar, sugiro que não siga com essa leitura. Não acredito que eu vá contar nada muito diferente do que você possa já ter ouvido, mas essa será a impressão de uma pessoa que detestou passar pela cirurgia cesariana. Se você está curiosa ou quer se informar, vem comigo.

Desde que descobri minha gravidez, decidi que queria o parto normal. Eu nunca fui a pessoa mais por dentro das vias de parto e de tudo que o corpo passa até chegar lá, mas eu senti em mim que deveria ter um parto normal. Afinal, é o normal. Tá no nome. Passada essa fase, fui em busca de um médico que realizasse esse tipo de parto, já que no Brasil está cada vez mais difícil achar isso – quando acha, é pelo SUS ou particular. Também conversei com uma amiga que já havia tido um parto vaginal – ela mora fora do país, onde a cesárea só ocorre em último caso – e ela me indicou grupos de Facebook e leituras.

“’A crescente medicalização de um processo normal de nascimento está minando a capacidade das mulheres de dar à luz e impactando de forma negativa sua experiência no nascimento’, afirmou Nothemba Simelela, diretora-geral assistente da OMS. Para ela, não há necessidades de receber intervenções adicionais para acelerar o parto se mãe e filho estiverem em boas condições.” (Fonte)

O primeiro contato com um parto normal pode ser, sim, assustador. Se isso não foi um assunto recorrente na sua vida, você vai pensar 500 vezes “será que eu dou conta?”. No meu caso, o “normal” era um bebê nascer de cesárea, já que minha própria mãe deu à luz três vezes dessa forma. E nunca reclamou! Aliás, ela defende até hoje. E tudo bem, é uma escolha de cada um.

Eu li muito, engoli informações dia após dia. Eu já sabia tudo sobre pródromos, tampão mucoso, episiotomia, expulsivo, expulsão da placenta – só para usar alguns dos termos mais cabulosos que eu jamais havia ouvido falar (e que hoje surgem com tanta naturalidade, da minha parte, numa conversa sobre o assunto que me esqueço de como não sabemos essas coisas e me assusto quando alguém não entende o que estou falando). Eu estava pronta no que diz respeito à teoria. Mas em termos físicos, parece que não.

“As cesáreas são indispensáveis quando se apresentam complicações, como hemorragias, sofrimento fetal ou posição anormal do bebê” (Fonte)

Era perto de 8h da manhã, no dia 13 de novembro de 2017, quando levantei da cama para fazer xixi. Eu tive uma gravidez tranquila, sem intercorrências, apenas com uma azia infindável em praticamente todos os dias das 40 semanas. Não tive contrações antes da hora ou alarmes falsos, eu inclusive consegui dormir muito bem até o último dia de barrigão. Maria Luisa já estava posicionada de cabeça pra baixo desde cedo nas semanas e assim permaneceu até o fim. E foi quando levantei com a bexiga apertada que um líquido desceu antes de me sentar à privada. Não foi uma cachoeira, não desceu pelas pernas, mas foi uma perda involuntária de líquido que fez uma pequena mancha úmida na minha calcinha.

Sentei, pensei. Chamei meu (então) namorado e falei que achava que estava perdendo líquido. Na madrugada anterior eu senti cólicas muito muito brandas, mas que nem me tiraram completamente o sono. Liguei para o consultório do meu médico, ninguém atendeu. Mandei uma mensagem no celular dele e fui tomar banho e café da manhã tranquilamente – eu já tinha lido que não havia necessidade de fazer jejum antes de um parto normal. E foi isso que segui.

Quando o médico respondeu, pediu que me encaminhasse para o hospital para avaliação. Por volta de 12h, fui para o primeiro exame de toque de toda a gravidez – nota: não há necessidade alguma de fazer o toque antes disso, é perigoso inclusive, pelo risco de infecção. No exame de toque, o/a profissional insere os dedos no canal vaginal da mulher até que atinja o colo do útero. Em um trabalho de parto, o colo do útero começa a ficar mais fino, depois de liberar o tampão mucoso, para que seja possível haver a dilatação. Já fazia quatro horas desde a primeira perda de líquido quando ouvi o médico dizer “seu colo do útero está grosso e não há dilatação”. Eu já sabia no que isso ia dar. Informado disso, meu médico me orientou que entrasse em jejum, sem nem beber água. Eu sabia mais ainda no que isso ia dar.

“O Brasil ocupa o segundo lugar no ranking mundial de cesáreas, com 55% dos nascimentos via cirurgia. Os dados, divulgados recentemente em uma análise mundial publicada pelo jornal cientítico The Lancet, comprovam que a taxa do país está muito acima dos 10% a 15% preconizados pela Organização Mundial da Saúde (OMS).” (Fonte)

Já no quarto internada, vestida com aquele avental medonho de hospital que deixa nossa bunda de fora, comecei a apelar para truques de última hora. Fiz agachamentos, dancei, eu e meu namorado ríamos bastante e estávamos tranquilos. Eu sempre disse que confiaria no meu médico e em Deus e que a única coisa que eu queria era que Maria Luisa chegasse com saúde e que eu permanecesse assim também, independente da via de parto. Mas não foi bem assim que reagi quando, por volta das 16h, meu médico fez o segundo toque e eu permanecia com colo grosso e sem dilatação após 8h de bolsa rota.

Ele me explicou que Maria Luisa não havia encaixado e que para que o parto normal acontecesse, o bebê precisava descer. Eu tinha a opção de induzir o trabalho de parto com ocitocina sintética, mas correria o risco de ter as contrações extremamente dolorosas (mais que as de um trabalho de parto normal, já que a intensidade é maior pela velocidade do processo), de chegar a 10 cm de dilatação e de Maria Luisa, ainda assim, não descer. Segundo ele, ainda, eu só poderia permanecer com a bolsa rota por até 18h, caso contrário, correria risco de infecção. A segunda opção era a cirurgia.

“No Brasil, por exemplo, onde a maioria das cesáreas se dá em gestações de baixo risco, 54,4% deste tipo de partos são feitos em mulheres de nível educacional elevado, frente a 19,4% de nível mais baixo.” (Fonte)

Todo o procedimento, a partir dali, foi extremamente mecânico. Eu não sentia que estava prestes a colocar minha filha no mundo, era como se eu estivesse indo para um centro cirúrgico para, sei lá, apenas diminuir minha barriga. Eu vestia o avental, touca no cabelo e nos pés e um cobertor pesado. Centros cirúrgicos são ambientes extremamente gelados – em linguagem formal e coloquial também. E enquanto descia numa cama hospitalar, observando o teto e sendo guiada sozinha por um completo estranho, senti a lombar contrair e chorei.

Na sala em que dei à luz havia cerca de 10 pessoas – se não for mais. E eu nem contratei fotógrafo. Eu estava deitada ali no meio, prestes a ter minhas pernas completamente paralisadas, e o entrar e sair pela porta me fazia sentir numa espécie de festa. Para receber a anestesia raquidiana, que é aplicada no meio das vértebras, você é colocada deitada de lado, com ajuda das pessoas da equipe médica – lembra que o avental é aberto na bunda? E se não bastasse já estar vivendo um drama pessoal dentro da minha própria cabeça, eu jamais esquecerei a dor que senti quando aquela agulha entrou em mim, me fazendo xingar todos os palavrões possíveis, a dor que senti quando aquela substância entrou em mim, me fazendo continuar os palavrões proferidos, e o instantâneo enjoo que senti que me fez gemer durante toda a cirurgia e achar que poderia vomitar a qualquer momento. Também nunca esquecerei da sensação de não sentir, que naquele caso era a falta de sensibilidade nas pernas.

“Com efeito imediato, a anestesia raquidiana tem a agulha inserida mais profundamente na região lombar e o anestésico é injetado uma única vez. Com cerca de 3 horas de duração, a raquidiana age o tempo necessário para o médico realizar a cesariana. ‘A gestante perde a sensibilidade e os movimentos dos membros inferiores. Sua ação é imediata e a gestante permanece consciente e acordada’, diz a obstetra e ginecologista Erica Mantelli.” (Fonte)

Toda a cirurgia deve ter durado uns 15 minutos. Eu estive o tempo todo consciente, mas totalmente grogue. Eu ouvia muito barulho, médicos que conversavam assuntos cotidianos, como se estivessem em um churrasco – e o cheiro do bisturi e confusão daquela sala faziam mesmo parecer que era um. Gemia e chorava. Tinha gente o tempo todo do meu lado, segurando minha mão – que nem perto do meu corpo estava, pois os braços ficam abertos em suportes da maca –, me falando palavras carinhosas, mas eu sequer me lembro quem era e em qual momento. Quando Maria Luisa ia ser tirada de dentro das sete camadas rompidas do meu organismo, desceram o pano estendido na altura da minha cintura para que eu a visse surgir. Mas eu sequer me lembro direito daquele momento.

Eu lembro de ouvi-la chorar e de chorar junto. Colocaram um gorro em sua cabeça, a envolveram em um pano para não sofrer com o frio daquela sala e a trouxeram até meu peito para que tivesse o primeiro contato com meu seio. Eu lembro em flashes que chorava, que posamos eu, ela e papai para celulares. E então, ela se foi. E só nos veríamos novamente em algumas horas – que, novamente, não me lembro muito bem quantas.

“Além de contribuir para salvar a vida do bebê, o aleitamento materno na primeira hora ajuda a mulher a ter leite mais rapidamente e auxilia nas contrações uterinas, diminuindo o risco de hemorragia. Para a mãe, manipular e cuidar do bebê e oferecer a pele e o seio logo após o nascimento, depois de todo o desgaste do trabalho de parto, além da intensa gratificação emocional, faz desencadear no seu organismo amplo processo fisiológico que inclui a liberação de endorfina, ocitocina e prolactina.” (Fonte)

Depois que Maria Luisa saiu da minha barriga e foi conhecer as pessoas através de um vidro, eu permaneci ali naquela sala sozinha com alguns membros da equipe médica, sendo “costurada”, sem sentir minhas pernas e sem ter ninguém que eu queria perto de mim. Era o fim de uma gravidez, de um período em que estive altamente vulnerável psicologicamente, de 40 semanas em que vivemos juntas 24 horas por dia e estávamos uma para cada lado à mercê da respectiva equipe médica.

Depois disso fui encaminhada para o quarto debaixo de um cobertor pesado e com uma sonda na minha uretra. Eu não podia falar demais, para não acumular gases, e nem sabia onde estava minha filha. Passada a parte do nosso reencontro e do encontro dela com novas faces, veio a madrugada e, com ela, a volta dos movimentos nas pernas e uma coceira desconcertante. Tudo coçava, até a sola do meu pé, e eu me esfregava inteirinha na cama para aliviar aquele desconforto. De leve né, afinal, tinha uma cicatriz gigante na barriga e ela doía. A sonda permaneceu comigo até o dia seguinte, já a prisão de ventre só saiu de mim quatro dias depois, com ajuda de supositório, e o sangramento via vagina mais de 40 dias depois (essa última parte é normal e também acontece no parto vaginal, é só porque nem todo mundo te conta).

Como eu disse lá no início, esse é um relato de uma pessoa que odiou a cirurgia cesariana. Se eu pudesse voltar no tempo, certamente vetaria a quantidade de pessoas na sala (nada contra nenhuma delas, mas era pra ser um momento só meu, do pai e da nossa filha), pediria mais silêncio e respeito àquele momento e conversaria previamente com meu médico sobre a possibilidade de ficarmos mais tempo juntas logo depois que Maria Luisa saiu da minha barriga. Quando relato para qualquer pessoa sobre aquele dia, não me sinto contando sobre um momento alegre, como deveria ser. Sinto como se relatasse uma cirurgia mesmo, dessas quaisquer, ordinárias. Mas eu to falando do nascimento da minha filha, da chegada de um ser humano que mudaria minha vida – e de várias outras pessoas – para sempre.

Eu não sou uma pessoa alienada e, assim como consumi muita informação durante a gravidez, segui (e sigo) lendo e entendendo muita coisa depois. Eu sei que existem partos normais traumáticos e cesáreas que fazem mães suspirar de alívio. Eu sei que o importante é que eu e minha filha temos saúde e vivemos juntas dia após dia. Eu sei que meu médico é um cara extremamente experiente e confiável e que fez o melhor e mais adequado pra nós duas naquele momento. E eu acredito que as coisas acontecem por um motivo, embora a frustração de não ter tido um parto normal caminhe ao meu lado.

O que eu quero dizer com isso tudo? Talvez eu não queira te passar nenhuma grande lição, mas deixo a mensagem para que você se informe. Se informe sobre vias de parto, sobre os prós e contras, sobre o que vai acontecer antes, durante e depois, sobre recuperação. Faça a sua escolha e a ame! Não deixe que ninguém te faça sentir coisas ruins sobre ela. Mas tem coisas igualmente importantes que você deveria focar e se informar também, e muito: amamentação e puerpério. Essa pode ser a parte mais punk.

Se prepare, tenha ao seu lado pessoas em quem você confie – e se precisar mudar isso no meio do caminho, mude! Confie na sua vontade, no seu corpo e no seu bebê. E assista “O Renascimento do Parto”, que foi o que me motivou a escrever esse enorme testamento até aqui.

“Em um nível planetário, o número de mulheres que dão a luz a seus bebês e placentas, somente por conta da liberação do coquetel de hormônios do amor, está se aproximando de zero. Eu não consigo imaginar, atualmente, uma pergunta mais importante que essa: qual o futuro de uma humanidade nascida por cesarianas ou por ocitocina sintética?” (Michel Odent, médico obstetra em “O Renascimento do Parto”)