Oi, Maria Luisa.

Posso me apresentar?

Nós já nos conhecemos há cinco meses, mas talvez você ainda saiba muito pouco sobre mim. Muito prazer, sou Bianca, a mãe que você escolheu para chamar de sua.

Sabe a vovó? Ela é minha mamãe. Vovó me conta que eu era muito parecida com você: um bebezão fofo, chorão no início da vida e tão linda que parava qualquer um na rua. Fui crescendo com personalidade forte, que vovó diria malcriada, mas eu diria questionadora – não conta pra ela, ta? Fica entre a gente.

Sabe, minha Malu, me recordo da minha infância e desejo que a sua seja do mesmo jeito. Eu tive liberdade na medida certa, fui educada de forma indiscutível e gozei de muita felicidade. Sempre contei com muitos amigos por perto, férias na praia, datas comemorativas com uma família enorme – e muito animada – reunida. Eu amava esportes e mamãe e papai deixaram eu me matricular em todos eles. Eu gostava da língua inglesa e mamãe e papai também foram correndo me inscrever em uma aula. Engraçado, sabe filha, não há uma lembrança sequer da minha vida que eu não tenha papai e mamãe envolvidos nelas.

Minha Malu, não há nada que façamos na nossa jornada que não desejemos compartilhar com nossos pais, comemorar junto com eles, chorar no colo deles… Voltar correndo para o ninho deles. A vida vai passar voando, você vai ver – eu mesma me lembro, como se fosse ontem, de estar na piscina do clube, em pleno horário de verão, esperando anoitecer para sair de dentro dela com dedos enrugados. Sem preocupações ao fim do dia. Mas, mesmo nas fases mais independentes da sua vida, quando você jurar que não precisa mais da gente, é para a gente, papai e mamãe, que você vai sempre querer voltar.

Deus, quando nos torna pais, concede para a gente uma magia que quase nenhuma outra pessoa da sua vida terá. É o poder de curar um coração apertado, de afastar medos para bem longe, de fazer caber num abraço a imensidão de todo um mundo.

Minha Malu, um dia você vai achar que cansou de mim. Vai me achar chata por não deixar você fazer tudo o que quer, da maneira que quer. Vai continuar me amando, mas não com a mesma devoção de hoje. Mas nada, nunca, vai mudar. É aqui que você vai sempre encontrar a paz que precisa.

Termino essa carta desejando que quando puder finamente lê-la e compreende-la, que venha caber de novo no meu colo, como hoje cabe. Não importa o tamanho que tenha, minha Malu, esse colo vai ter sempre o seu molde perfeito.

Muito prazer, Maria Luisa. Sou Bianca, a mãe que nunca vai deixar de ser sua.